sábado, 17 de janeiro de 2015

DO MEDO QUE EU CULTIVO

Tumblr: Cute
Quando os dois se beijaram na novela uma amiga me disse: achei desnecessário.

Eu não falei nada, apenas me compadeci de sua ignorância. Até porque é difícil argumentar com quem não está disposto a te ouvir -- embora eu acredite que essas pessoas não estão dispostas a ouvir nem a si mesmas. Apenas fiz o que a garota não fez, que foi seguir um valioso conselho daquela escritora, a Martha Medeiros:

"Fico besta com quem perde a compostura por não gostar de algo ou alguém. Tão mais simples desconectar. Não leia, não ouça, não prestigie. Dê atenção ao que tem sintonia com você. E toque sua vida, sem agredir."

Muito drama seria poupado. E foi, nesse caso.

Contudo, apesar de eu ter contribuído por um momento a mais de paz nesse mundo, eu não deixei de pensar que bela idiotice minha amiga acabara de dizer. Afinal, como alguém que possui todos os privilégios da heteronormatividade pode saber o que é necessário ou desnecessário para um grupo social ao qual não pertence?

Provavelmente ela nunca terá que encarar o preconceito de alguém ao postar aquela foto no Instagram, na qual ela e o namorado estão amorosamente abraçados. Ela nunca terá medo de andar de mãos dadas na rua com ele. Ela nunca precisará ter aquela conversa com a família ou vice-versa.

Nunca pelo simples fato de ser hétero, eu digo.

Acredito, por outro lado, que quanto mais pessoas se assumem homo, trans, bi, etc., e falam sobre o assunto, ele deixa de ser tabu e o preconceito vai tendo que, aos poucos, ser engolido quando não superado. E essa é uma luta que todos nós que nos identificamos sexualmente oprimidos deveríamos assumir. Sinto que é o que eu deveria fazer.

O medo que a gente deixa crescer, porém, não é nada além do que cultivado. Não estou negando os riscos de se expor, longe disso. Só me encontro nessa vibe meio filosófica de achar que quanto mais nos omitimos, menos legítima nossa luta pessoal se torna. E não defendo a técnica de chutar o pau da barraca, não, mas precisamos parar de regar esse medo e encontrar sua raiz para que enfim possamos cortá-la.

Porque um dia eu ainda vou andar de mão dada com o cara que eu estiver gostando, e vou postar nossas fotos no Instagram e alguém vai olhar pra mim de uma forma estranha e eu vou achar que é por conta do meu cabelo bagunçado ou da minha cara de "foda-se".

Até!

6 comentários:

  1. Ser e assumir-se LGBT é um ato político, porém difícil, devido as circunstâncias que você mesmo disse. (É difícil. tenho pensado muito sobre. )Você pontuou muito bem :"quanto mais nos omitimos, menos legítima nossa luta pessoal se torna". Ai está uma das raízes de sustentação de todo esse preconceito nos dias de hoje.

    Quanto ao discurso da sua amiga, é um discurso adquirido e internalizado sem reflexão, fundamentado na ignorância sobre a diversidade sexual, se não há informação, a empatia caberia muito bem, mas pouco sabem o que é isso.

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    1. É triste, mas essas pessoas só têm empatia por quem elas querem ter.

      Abraços, Dominus!

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  2. Não tenho palavras para expressar como suas palavras me definem. Parece que você escreveu um pensamento meu rs.
    Conheci o seu blog agora, e já li ele TODO hahaha muito bom, parabéns!

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    1. Muito feliz aqui com seu comentário, Sam!

      Obrigado!

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  3. Pois, o preconceito ainda é algo que domina a sociedade, mas sempre pensei que o Brasil nisso estivesse mais evoluído. Talvez no Rio de Janeiro e em São Paulo seja mais fácil, e a sociedade mais tolerante, não?

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    1. Sabe aquela história do "vamos fazer enquanto que ninguém tá vendo"?

      Eu acho que é isso o que acontece com o preconceito -- no caso discutido aqui, contra os homossexuais. Naquela cidadezinha do interior é mais fácil fazer piada homofóbica e bater no único homossexual publicamente assumido. Entretanto, se você vai numa capital como Rio ou São Paulo, por exemplo, o preconceito é mais tímido. Ele está lá, mas ele não é tão explicitamente demonstrado, acredito eu, por conta do número maior de homossexuais assumidos que não se veem sozinhos numa situação de discriminação. Homossexuais que querendo ou não, gostando ou não, formam um grupo político organizado que reage às ofensas, o que acaba por inibir a ação dos agressores.

      Não sei se eu consegui explicar bem o meu ponto, mas em suma é o seguinte: você joga o lixo no chão porque acha que ninguém tá vendo. Nas capitais há mais gente na rua, então você acha que pode ser visto mais facilmente, logo, você pensa duas vezes antes de jogar o lixo na rua. E no final espera chegar em casa pra jogá-lo. Porque lixo, como sabemos, não desaparece de uma hora pra outra.

      Abraço.

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